Em sua 6ª edição, a Mix Literário traz alguns recortes e encontros que refletem uma crescente produção editorial queer, não apenas no número de autores publicados, mas sobretudo na variedade de temáticas específicas e tramas singulares que vem ganhando vida nos campos da ficção e da poesia. Como tendência geral da produção, este ano, a curadoria destaca a questão da memória, eixo que tem apresentado nuances em trabalhos bastante criativos sobre reparação histórica e desconstrução de laços afetivos tradicionais, na família e para além dela. Acompanhando essa demanda social, romances e contos sobre novas afetividades, como o poliamor e os relacionamentos abertos, têm ganhado espaço. É importante também sublinhar que nossa literatura queer tem se fortalecido buscando narrativas interseccionais que compreendam e deem visibilidade a experiências de vida exemplares, marcadas por múltiplas dissidências, principalmente as relacionadas a raça, gênero e orientação sexual, como podemos encontrar na maioria dos autores convidados para os onze eventos deste ano. Entre eles, o lançamento do último livro premiado Caio Fernando Abreu, pela nossa parceira de alguns anos, a prestigiada Editora Reformatório; a 3ª edição do nosso já tradicional sarau com Marcelino Freire, reunindo mais de quarenta poetas de todo o Brasil; um debate sobre a produção lésbica fértil para jovens adultos; um encontro com o autor francês Mathieu Lindon e outro com João Silvério Trevisan, ambos lançando importante livro sobre memórias de perdas relacionadas ao HIV. Com essa variedade dentro da diversidade, reunimos este ano cerca de setenta vozes potentes, sem contar o engajamento de mais de duzentas obras inscritas em dois prêmios literários que não poderiam ter sido realizados sem o apoio da Biblioteca Municipal Mário de Andrade, da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, além da essencial ajuda voluntária de tantos amigos. Já temos uma história. E nunca tivemos tantos autores da nossa comunidade sendo publicados e recebendo cobertura da mídia, o que nos faz pensar em quantas vozes ainda aguardam para conhecer seus leitores. Lemos e escrevemos cada vez mais, dentro e fora de nichos, para nós e para mais alteridades. Seguimos muito mais fortes.
Alexandre Rabelo está à frente da Mix Literário desde 2018 e é autor de três romances, entre eles, “Miss Macunaíma” (Record, 2022), além de ser coorganizador do livro da coletânea de autores queer brasileiros “A resistência dos vaga-lumes” (Nós, 2019).